
23.Agosto.2003

Agora ou Nunca (All or Nothing), 2002
Não, seu professor do CCAA não te enganou aquele tempo todo: “all”, em inglês, é “tudo” e não “agora”. E “nothing” é “nada” e não “nunca”. Deve ter sido porque, uns anos atrás, outro filme inglês chegou – Full Monty - e eles (não me venha com "eles quem?". Eles), sem paciência para criar um título inteligente, colocaram Ou Tudo Ou Nada. E, agora que vem um que de fato se chama "Ou Tudo Ou Nada", não dá pra usar. Bem feito.
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CUIDADO: Esse filme é feito com pessoas de verdade. Se você tem algum problema com isso, por favor, saia da sala e retire seu dinheiro de volta com a bilheteira de broche cinza. (um monte deles estavam comendo pipoca nessa hora e ficaram. Saíram no meio sem a restituição. Bem feito).
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De como não existe nada pior do que as coisas acontecerem como se já não acontecessem mais. Só se vai, vai, vai e nem motivo para reclamar não tem, porque, afinal, a vida é aquela mesmo. Depois de alguma tragédia – no caso, um enfarte, uma gravidez -, que pelo menos é um sinal de vida, é que as coisas começam a, se não mudar, acontecer. (se é assim não sei. Mas, bem filmado, convence)
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O diálogo mais importante deve ter no mínimo uns três minutos de plano e contraplano – só. Na cara de um (de perto), na cara do outro; do um, do outro. Só as expressões e o texto, que não é que seja ótimo, mas quase não é texto, de espontâneo que soa. Rende muito essa maneira de ele trabalhar com os atores; fantástico.
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Se você está num daqueles dias em que sente confiança demais na humanidade e na capacidade das pessoas de serem felizes e aproveitarem suas vidas, esse é o filme certo para você. Mudar seu dia.
Timothy Spall –- Phil Lelsey Manville –- Penny Bassett Alison Garland –- Rachel Bassett James Corden –- Rory Bassett Ruth Sheen – Maureen
Roteiro e direção: Mike Leigh
16.Agosto.2003

Dirigindo no Escuro (Hollywood Ending), 2002
Outro dia (deve fazer um tempo), li em algum lugar (deve ter sido na seção de frases e estrelinhas do Guia da Folha) algum desses chatos que gosta de escrever sobre cinema (deve ser a Suzana Amaral) dizer que “a piada final salva”.
Salva nada!
Ok, foi engraçado mesmo. Foi bastante engraçado e esperto, parecia coisa do Woody Allen. Mas, puxa vida, fiquei aborrecido algumas vezes, enroscando minha unha quebrada na costura da cadeira e tentando lembrar o máximo de nomes de legumes que conseguia. Só porque ele me fez sair da sala com um sorrisinho preso no canto esquerdo da boca não vou esquecer tudo isso, não. Não sou bobo.
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Explicando assim (assim como? Você não explicou nada!), parece que é uma baita pudim jogado na cara de Hollywood e de como tudo funciona sordidamente por lá e tal. Mas não é não. O máximo que têm são algumas piadinhas, salpicadas do meio dos diálogos (que até eles estão fraquinhos). O tempo todo é ele repetindo – e meio mal explorado – a coisa de estar cego no set. Achei chato. Daí vêm os estudiosos cipriotas me dizer que estão justamente aí a metalinguagem e a ironia finíssima: esse filme que eu vejo é quase aquele feito por um cego. Genial!
Pô, mas com essa desculpa por trás fica fácil. Você só gostou porque é do Woody Allen.
Woody Allen –- Val Waxman Téa Leoni –- Ellie Debra Messing –- Lori Mark Rydell –- Al Hack Treat Williams –- Hal George Hamilton –- Ed
Roteiro e direção: Woody Allen
27.Julho.2003

O Gosto dos Outros (Le Goût des Autres), 2000
Parece claro que minha condição de cidadão honorário parisiense me torna muito suspeito para dizer, mas é verdade: como os europeus sabem o que fazer com uma música de fundo.
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Caras mal-humorados são fascinantes. A garota percebeu isso.
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O roteiro existe muito menos do que os personagens. Parece que o destino deles não está traçado; eles próprios é que fazem o filme com uma baita naturalidade. Do modo que as coisas acontecem para valer. Eu talvez repita demais isso quando elogio alguns filmes, e meus discípulos podem vir a crer que eu sou um realista com os pés cravados no chão. Não é isso, não. Só gosto que, quando se pretende tratar de pessoas, se faça como se elas fossem, hmmm..., pessoas.
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O sujeito está tentando deixar de ser quem ele é para tentar ser quem ele quer ser. Soa familiar, não? (e como é duro ser quem você quer e não se deixar cair na tentação de ser um idiota. Porque não depende - ou não parece depender, pelo menos - só de nós, mas, também, dos... outros.)
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Isso tudo poderia terminar com uma breve e enfática citação de Jean-Paul Sartre - aquela, a única válida -, mas poderia ser perigoso, ainda que verdadeiríssimo. Se eles não são o inferno, no mínimo são aquilo que deixa tudo muito, muito mais complicado.
Jean-Pierre Bacri -- Jean-Jacques Castella Anne Alvaro -- Clara Devaux Agnès Jaoui -- Manie Gérard Lanvin -- Franck Moreno Alain Chabat -- Bruno Deschamps
Roteiro: Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacri Direção: Agnès Jaoui
27.Julho.2003

Vamos Nessa (Go), 1999
E que garota mais bem-intencionada que é essa Katie Holmes. Não sei como é que um dia puderam colocá-la para torturar a professora e ainda mudar a nota dela no boletim (como se a Katie Holmes não fosse tirar A+).
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Uma sessão da tarde mais moderninha, o que não é de todo mau. A estrutura do roteiro é interessante - embora, tá, deveria pagar royalties pro Tarantino, o que não de todo (de todo) mau. Mas os diálogos são bem mais fraquinhos do que eles se acham, o que é de todo (todinho) mau.
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Na verdade dá até um pouco de preguiça de ficar dizendo que é um rascunho jovem do Pulp Fiction, de tão escancarado que isso é. Pelo menos ele seguiu um caminho bom e não fez uma coisa qualquer: a trama é bem amarradinha, os personagens são divertidos. Tá, vai.
Sarah Polley -- Ronna Martin Desmond Askew -- Simon Baines Katie Holmes -- Claire Montgomery Jay Mohr -- Zack William Fichtner -- Burke Timothy Olyphant -- Todd Gaines Taye Diggs -- Marcus
Roteiro: John August Direção: Doug Liman
23.Julho.2003

O Jogador (The Player), 1992
Os primeiros oito minutos nos avisam claramente: “prestem atenção em nós que nós seremos fantásticos, vai valer a pena.” Eles são mesmo. Vale mesmo.
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São vários problemas que vão e vêm - o assassinato, o cara que pode tirar o lugar dele, o romance com a garota - e a gente sempre segue uma linha, por mais que não saiba qual é. Os diálogos fazem referência a situações do próprio filme, que por sua vez faz referência a Hollywood. No fim, ele consegue o que tanto se tenta fazer: ser metalingüístico, analítico e crítico divertindo - muito. Dá bem mais resultado. Imagine se em vez de Engels, o Karl Marx tivesse como parceiro no Manifesto o Luís Fernando Veríssimo. Aposto que seríamos todos russos até hoje.
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Por exemplo, ele conta à June sobre ter matado o David Kahane, mas não direito. Diz, na cama (bíblica), que “foi responsável pela morte”. O que tem tudo a ver com a personalidade dele e que só daria resultado sendo ela como é: quase niilista. Era preciso, então, conhecer os personagens para chegar a essa cena, que justifica muito da ação. Daí que se pode concluir, senhoras e senhores, que o sujeito pensou para escrever o roteiro! Não é fantástico?
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Esse Altman também não é nada bobo. Tá, ele explicita o lado sujo de como tudo funciona em Hollywood? Sim. Mas não venha me dizer que isso também não exerce um certo fascínio (ou sou só eu, um pilantra?).
Tim Robbins -- Griffin Mill Greta Scacchi -- June Gudmundsdottir Whoopi Goldberg -- Det. Susan Avery Peter Gallagher -- Larry Levy Sydney Pollack -- Dick Mellen Incontáveis participações especiais como “herself” e “himself”
Roteiro: Michael Tolkin (já tinha escrito o romance) Direção: Robert Altman
22.Julho.2003

Moloch (Molokh), 1999
Ih, caramba, tô achando o Hitler legal!
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Ele parece aquela velhinha do conto da Clarice Lispector, de quem todo mundo fica falando bem e tratando amavelmente só porque é velha, como se ela não soubesse de nada o que está acontecendo em volta. No caso, é só porque ele é poderoso. E, se você parar pra pensar com calma, vai perceber que o que está acontecendo é uma citação à Clarice Lispector, o que é muito, muito sério.
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O objetivo será que era humanizar o Hitler ou fantasiar ainda mais em cima do fato de ele ser só um ser humano? Tá, é interessante. É um tema legal: de como a Eva era a única pessoa que tinha coragem de encarar o homem que aterrorizava metade do mundo. Mas será que esse era o melhor jeito de fazer mesmo? Com esse monte de cena lenta e a falta de diálogo? Não é que precisasse colocar o Hitler escapando do exército aliado de moto, desviando dos tiros. Nem que eles precisassem aparecer transando e discutindo a relação, mas, poxa, precisa deixar chato também?
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Catso, e ainda não sei que diabos significa "Moloch". Respostas para a redação
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Sério, não entendo muito bem o porquê do filme. Talvez seja eu, que não sou russo o bastante.
Leonid Mozvogoy -- Adolf Hitler Yelena Rufanova -- Eva Braun Leonid Sokol -- Josef Goebbels Elena Spiridonova -- Magda Goebbels Vladimir Bogdanov -- Martin Bormann
Roteiro: Yuri Arabov e Marina Koreneva (ah, vai. Até parece que os jurados de Cannes acharam mesmo esse o melhor roteiro do ano) Direção: Aleksandr Sokurov
20.Julho.2003

Amor à Flor da Pele (Dut Yeung Nin Wa), 2000
Essas seqüências bem claramente marcadas e aparentemente desconexas. E como filma bem o desgraçado.
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Por que é que a câmera precisa ir buscar o outro interlocutor da conversa se o que importa na história que ele quer contar - ou do modo que ele quer contar, pelo menos - são os dois? Só entre eles que os diálogos ficam em plano e contra-plano. Boa.
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Haja coragem pra filmar um filé de frango assim tão de perto.
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Não se sabe bem se - e por quê - cada um dos dois queria se envolver depois de descobrir a traição. Ele queria sim. No entanto, quem ficava mais sentida e dava mais importância ao fato de ser traída era ela. Muito melhor do que Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus.
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Pior é que a vida acontece assim mesmo, aos poucos. Normalmente nos filmes não é assim. O todo não é soma das partes, é uma parte grande, de 100 minutos.
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(E como sabem ficar tensos esses japoneses (sic). Eles me deixam preocupado)
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Será que, no fundo, eles se sentem mesmo atraídos e a cumplicidade de adulterados foi uma conseqüência que pareceu servir de bom pretexto? Ou eles eram mesmo é cúmplices e a atração foi uma conseqüência que serviu de bom pretexto para a vingança ser ainda mais completa? Isso apesar de eles não admitirem nem uma coisa nem outra: nem que querem um ao outro, nem que querem se vingar.
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Nat King Cole cantando os boleros em espanhol como trilha romântica de um casal chinês. Gotta love it.
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Não paro de pensar nos cinco minutos finais, acho que eles me desapontam um pouquinho. Estava perto de cometer um “obra-prima” a qualquer momento, e eles me impediram. Não que estraguem tudo, mas não acho que fosse preciso. E se você vai me fazer apertar os olhos para ler um texto na tela, que ele seja ou algo muitíssimo relevante, ou muitíssimo bom. (tá, tava em chinês e se fosse falado eu também teria que ler, mas você entendeu. É outra regra)
Maggie Cheung -- Mr. Chan Tony Leung Chiu Wai -- Chow Mo-wan O resto não interessa
Roteiro e direção: Wong Kar-Wai
13.Julho.2003

Operação França (The French Connection), 1971
E o Gene Hackman, coitado, que nunca foi jovem?
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Se as coisas estão bem feitas para se encaixarem lá na frente, não tem necessidade de ficar explicando. Deixa que a gente vai entendendo aos poucos. Para isso dar certo, fala-se muito pouco; são quase só ações. E, mesmo quando eles falam, nunca é à toa. Bacana.
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Os policiais não são nada demais. Eles fazem cagadas e tudo. A gente, na verdade, nem os conhece direito, mas acaba torcendo porque esse se mostra o caminho natural das coisas. Que diversão mais dirigida.
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Incrível como ele está a cara do John C. Reilly em Magnólia
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Só não queira vir me dar mais adrenalina do que espero como se isso fosse necessariamente uma coisa boa. Bem, pelo menos ele se fodeu no final.
Gene Hackman -- Jimmy ‘Popeye’ Doyle Fernando Rey -- Alain Charnier Roy Scheider -- Buddy Russo Tony Lo Bianco -- Sal Boca (a história é verídica, e um dos dois policiais faz uma ponta como chefe do departamento na polícia. Chama Eddie Egan)
Roteiro: Ernest Tidyman, Robin Moore (romance) Direção: William Friedkin
13.Julho.2003

Plata Quemada, 2000
Ok, vamos ditar mais uma regra: se você precisa ficar mais de três segundos com a câmera parada em um mesmo detalhe para dizer algo, é porque se trata de um simbolismo barato. E não é que seja um acidente: são várias e várias vezes.
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Confesso, eu estou um tanto entediado. Quando diabos é que eles vão morrer?
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Ele não tem muita certeza se quer ser o Tarantino, ou o Abbas Kiarostami (que eu não tenho intimidade pra chamar só pelo sobrenome) e acaba parecendo uma Tata Amaral. Parece trabalho de conclusão de curso de aluno da USP: ele é inteiro pensado para ser inteligente, em cada detalhe. É calculado para chocar e para tratar com aparente espontaneidade aquilo que é “proibido”. Claro que é uma história interessante, ainda mais sendo verídica, mas não precisava de tudo isso (ou nada disso) para contá-la.
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Saiba separar as coisas: nunca convide sua garota para participar de seus planos criminosos. Não dá certo.
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Também, o que você esperava? Que agora todo filme argentino ia ser bom só por ser argentino?
Eduardo Noriega -- Ángel Leonardo Sbaraglia -- El Nene Pablo Echarri -- El Cuervo Leticia Brédice -- Gisele Ricardo Bartis -- Fontana Héctor Alterio -- Losardo
Roteiro: Marcelo Piñeyro, Marcelo Figueras e Ricardo Piglia (romance) Direção: Marcelo Piñeyro
12.Julho.2003

Procurando Nemo (Finding Nemo), 2003
Veio à tona uma questão: em português, chama Procurando Nemo e, em inglês, Achando Nemo. Soubesse disso, a doutora Ivana Bentes provavelmente publicaria - primeiro na Sinopse, depois no Caderno 2 - um belo de um artigo sobre como isso reflete nossa auto-estima mais baixa enquanto nação diante da segurança quase arrogante dos norte-americanos de que podem conseguir o que querem. Uma de nossas colaboradoras estendeu a discussão para outro ponto e sugeriu uma leitura psicológica do título, segundo a qual a busca iria além do físico e implicaria na busca do outro, do não-eu; a quebra dos grilhões da própria personalidade. Ela também achou besta que o título original já entregasse de cara que o pai ia encontrar o Nemo. Ela é bem legal.
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Pra começar, visualmente é lindo. Podia ser mudo e sem-graça que já valia a pena por alguma coisa. A história - claro, convencionalíssima - é super bem-estruturada. Ele monta o tempo todo as duas ações paralelas - o pai no mar e o filho no aquário - e as duas são divertidas e passam por uns obstáculos legais. E os personagens, vou te dizer, são muito mais ricos do que quase tudo o que você for ver por aí. Não tô dizendo que são esquizofrênicos em conflito com a castração invisível na sociedade (é um filme pra crianças!), mas eles todos fazem sentido - mais do que parece. O melhor deles é a Dory.
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Céus, e pensar que eu já tive um aquário. A gente se diverte com cada coisa (já tive bilboquê, joão-bobo, sei lá. A gente é esquisito).
Albert Brooks -- Marlin Ellen DeGeneres -- Dory Alexander Gould -- Nemo Willem Dafoe -- Gill Geoffrey Rush -- Nigel
Roteiro: Andrew Stanton, Bob Peterson e David Reynolds Direção: Andrew Stanton e Lee Unkrich
09.Julho.2003

Longe do Paraíso (Far From Heaven), 2002
- É comédia, né? - É? Não sei, parece que é mais, tipo, drama. - Ah, é? - É. - Você gosta de drama? - Ah, alguns, sei lá...
O Brasil é o país do futuro, já dizia o Marquês de Pombal.
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Cada puta diálogo entre a Julianne Moore (que às vezes parece a Nicole Kidman em Os Outros, só que menos bonita) e o Dennis Quaid (que às vezes parece o James Stewart em Vertigo, só que menos careca) na sala da casa deles, com a luz escura e azulada. São as melhores cenas do filme.
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Será que na encarnação em que eu nasci na Califórnia, em 1940, nós jantávamos purê de batatas em uma mesa oval de madeira e havia uma natureza morta pendurada em uma parede e um relógio na outra? Acho que sim.
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Não dá para se preocupar tanto assim com a Julianne Moore; de um jeito ou de outro ela acaba se virando. Pode ser até depois de o filme acabar. Lembra Magnólia? Depois de o cara morrer, aposto que ela ficou numa boa. Escuta o que eu digo, essa mulher tem fibra.
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O personagem do negro traz um pouco de filosofia barata que não precisava, definitivamente. Não gostei da seqüência em que a filha dele toma a pedrada. Nem da seqüência e nem da maneira meio perdida como ela surge. O roteiro me parece ter algumas justificativas meio fracas. Será que, no meio da conversa decisiva que eles estavam tendo, ele realmente ia falar que DALI A DUAS SEMANAS ia pegar o TREM DAS 16H30? Não, né?
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Se você se chama Todd e é a fim de fazer cinema, uma dica: pinte de colorido o american way of life – o original ou o de hoje mesmo – no início de seu filme e vá desfacelando-o aos poucos, mostrando a hipocrisia e a superficialidade de tudo. Tem dado certo.
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O que nos leva à lista dos cinco maiores Todds de todos os tempos:
5 - Todd Haynes 4 – Todd Woodbridge 3 - Todd Field 2 - Todd Solondz 1 – Toddyinho
Julianne Moore –- Cathy Whitaker Dennis Quaid –- Frank Whitaker Dennis Haysbert (que é filho do Denzel Washington com o Forest Whitaker) –- Raymond Deagan Viola Davis (belo nome) –- Sybil
Roteiro e direção: Todd Haynes (ah, e os produtores são o George Clooney e o Steven Soderbergh)
06.Julho.2003

Los Angeles: Cidade Proibida (L.A. Confidential), 1997
Bah, que “cidade proibida” o quê!
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Como é sério o Russell Crowe! Óóóó!!!
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Experimente falar “Hush-Hush” umas 50 vezes consecutivas. Você não sente cócegas nos lábios?
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Cada segundo leva para o próximo sem nem pestanejar, nenhuma dúvida. E o filme, no entanto, tem um ritmo ótimo, variado pra cacete e pensado. Para isso, os cortes que mudam de uma seqüência para a outra têm que ser muito bem feitos (e são). São sempre preparados para não acontecerem só porque precisa mudar de cenário.
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Como são ótimos os personagens: é isso que leva o filme. Eles são complexos, chegam a ser confusos (e as pessoas não são mesmo confusas?). Você não gosta 100% de nenhum dos três - o Bud, o Jack e o Ed. Em pelo menos um momento você detesta cada um deles. Você nem percebe, e o roteiro vai te levando a torcer para quem merece, bem legal.
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Só faltou um pouquinho de coragem para não ceder a algumas coisas: a) o que definiu boa parte da trama foi um tiroteio-Chuck Norris; detesto isso e b) o Bud não tinha que ter sobrevivido (nem tido um enterro emocionante como última cena, fechando no túmulo, se fosse o caso de morrer). Claro, de repente o Curtis também acha e só foi obrigado a fazer isso pela máquina hollywoodiana, mas a) eu duvido e b) não é problema meu
Kevin Spacey -- Jack Vincennes Russell Crowe -- Bud White Guy Pearce -- Ed Exley James Cromwell -- Dudley Smith Kim Basinger -- Lynn Bracken Danny DeVito -- Sid Hudgeons
Roteiro: Brian Helgeland e Curtis Hanson (baseado em romance de James Ellroy) Direção: Curtis Hanson (o único filme bom de verdade dele)
17.Maio.2003

Embriagado de Amor (Punch-Drunk Love), 2002
Não tem crédito de abertura. A primeira cena sozinha é uma resenha: ele, na mesa, no canto daquela sala fria, daquele chão azul, daquela conversa perturbada no telefone.
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Excelente do PTA ter chamado o Adam Sandler para esse papel. Estava escrito na testa dele que havia algo mais do que comédias bobinhas naquelas bochechas. Ele é o centro de tudo. Por meio dele é que o filme fala, aproximadamente, de “o que é ser um humano hoje, perceba (e se importe) você ou não."
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Olha só essa luz que cega, como ela existe de verdade lá fora, se espremendo pelas frestas da tua persiana ou escancarando o portão da tua oficina. O mundo te obriga a ou você aceitar tua penumbra, ou procurar a luz (aquela que está pertinho, ali perto) dentro da cabeça – então, dá no que dá. Só o que pode mudar e fazer você aceitar a luz é.... o amor? Seja na forma de um piano de brinquedo largado no meio da rua ou de um luau um pouco brega no Havaí. “No entanto, não sei se fico com a vida ou com o (... )amor(?)” (como pode, né?) É puro melodrama, mas quem se importa? Se é bom e criativo, eu digo.
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Na verdade, é só a exacerbação do que todo mundo faz. Ou que todo mundo com alguma sensibilidade faz. Eu, pelo menos faço. E nesse ponto da minha carreira eu já não me preocupo em admitir que eu tenho alguma sensibilidade.
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Coitada é da Emily Watson, que nunca foi feliz, nem com seu sorriso (que é quase de perdão).
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Uma salva de palmas para o Philip Seymour Hoffman.
Adam Sandler -- Barry Egan Emily Watson -- Lena Leonard Philip Seymour Hoffman -- Dean Trumbell Luis Guzmán (sujeito mais porto-riquenho do mundo) -- Lance
Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson
4.Maio.2003

Ontem, Hoje, Amanhã (Ieri, Oggi, Domani), 1963
Adelina, o primeiro segmento – O argumento é muito bom, a história é simpática. E eu gosto muito dos dois, o que é pré-requisito para se gostar de cinema italiano, já que TODOS têm ou o Mastroianni, ou a Sophia Loren, ou o Vittorio Gassman. Provavelmente é subsídio estatal, algum tipo de concurso. O terceiro colocado leva o Nino Manfredi.
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Aposto que nenhum italiano no mundo consegue falar qualquer outra língua sem sotaque.
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Anna – O argumento do primeiro é melhor e mais engraçado, mas o texto aqui é mais inteligente. Fora que o Marcelo Mastroianni tem que ser um cara articulado e no mínimo de classe média. Até pelado ele deve ficar de terno cinza.
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Com todo respeito ao MM, ele guarda uma improvável semelhança com o Mr. Bean.
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Mara – É o melhor dos três, no conjunto. Fora que tem uma cena antológica, o que dá sempre muita satisfação de assistir dentro do contexto. Como ler Hamlet e chegar na parte do “ser ou não ser".
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Quanto mais o tempo passa, mais se faz de tudo por dinheiro, mais claramente. Não é nada assim tão inteligente, mas bem-feitinho.
Marcelo Mastroianni Sophia Loren o resto
Roteiros: Billa Billa/ Eduardo de Filippo (sobre romance de Alberto Moravia) e Cesare Zovattini Direção: Vittorio de Sica
4.Maio.2003

Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard), 1950
Se alguém precisar fazer uma enciclopédia em multimídia, esse filme pode bem ser o verbete “CINEMA CLÁSSICO”. Acho curioso como algumas coisa ficam evidentes: o uso da música, pontuando claramente as situações, quando pára todo o som ambiente, fecha no rosto da mulher e reverbera um “pããããm!”. Ou o cuidado para que os planos escolhidos também ajudem a transmitir o sentido de cada cena.
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Hoje não diz quase nada e o máximo que se pode fazer é algum raciocínio chato comparando aquilo com as celebridades instantâneas, a sociedade do espetáculo ou sei lá o quê. Mas imagine em 1950, quando o cinema falado ainda era recentemente novidade e as ex-estrelas de cinema mudo ainda existiam. O Billy Wilder é fantástico. Está entre os caras mais antigos em cujos filmes eu me lembro de ver um texto realmente bom, inteligente. Os diálogos são bem-humorados e conduzem maravilhosamente a cada próximo ponto da trama.
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Mas eu ainda prefiro o Wilder quando é mais arisco e engraçado. Não tanto quanto em O Pecado Mora ao Lado, mas um degrau acima, como Sabrina, Quanto Mais Quente Melhor ou Se Meu Apartamento Falasse.
William Holden –- Joe Gillis Gloria Swanson –- Norma Desmond Erich Von Stroheim –- Max Von Mayerling Nancy Olson –- Betty Schaefer Cecil B. De Mille –- ele mesmo Buster Keaton –- também Mais um monte de gente como eles mesmos
Roteiro: Billy Wilder e Charles Brackett Direção: Billy Wilder
3.Maio.2003

Ajuste Final (Miller's Crossing), 1990
Ainda bem que apareceu isso para tirar dos meus olhos o gosto de Carandiru. Filmaço da pessoa mais legal do mundo, os irmãos Coen. Que roteiraço, espetacular. Você nunca sabe bem o quê – e por quê – acontece. Os próprios personagens tomam algumas decisões sem ter certeza do porquê.
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No mesmo ano, Ray Liotta em Bons Companheiros e, agora, Gabriel Byrne. Dois caras que eu juraria que nunca iriam passar por bons gângsteres, vejam só.
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ISSO é humanizar sem ser clichê, sem ser brega, nem superficial. ISSO é mostrar as regras implícitas de um mundo sem ser panaca e permanecendo espontâneo. Ah, sim e fazendo um puta filme enquanto isso (ISSO).
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Se um dia você precisar de gente para o seu filme, entre em contato com os irmãos Coen. Eles conhecem os melhores atores de Hollywood e escalam eles para os papéis certos.
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Ê, irmãos Coen...
Gabriel Byrne –- Tom Reagan Albert Finney –- Leo Marcia Gay Harden –- Bernbaum Steve Buscemi –- Mink (que é pequeno) Frances McDormand (aparição como secretária de um cara) Sam Raimi (também, como um carinha qualquer)
Eles sempre dão um jeito de colocar esses camaradas nos filmes.
Roteiro e direção: Irmãos Coen
3.Maio.2003

Carandiru, 2002
Mesmo depois de ouvir tanta coisa ruim sobre Carandiru, não imaginei que pudesse ser tão horrível. O roteiro é seboso, imprestável. Quanto dinheiro jogado fora: não tiveram a decência de tentar transformar o livro em um filme; foram preguiçoso no que fizeram e ainda fizeram mal. A direção é absolutamente convencional e, pior, deslumbrada com um ou outro plano metido a ser perspicaz – como a câmera olhando por aquele olho mágico da cela. O personagem do Drauzio Varella, que teoricamente é o fio condutor, não conduz nada a lugar nenhum; fica perdido entre uma história e outra. As atuações, Jesus. E o mais chocante é que o pior de tudo não é nem o Caio Blat, que, com aquele jeitinho de jovem Werther, quer vir me dizer que é um assassino. Milton Gonçalves, o cara que faz o médico, o Sem Chance. Pelo amor de Deus, vocês não podem ter feito aquilo tudo a sério. Humanizar os presos? Quem diz isso é um mentiroso puxa-saco. O filme nem cria empatia, nem neutralidade, nem nada em relação aos presos. Se o objetivo era que, ao acabar o filme, todos estivessem chocados pensando “Puxa, e esses 111 mortos eram humanos..”, deu errado. Se era divertir o público, deu errado também, porque o roteiro é incapaz de criar um momento de tensão. Se era incitar a reflexão, deu errado. Se era para apreciação técnica, deu muitíssimo errado. Se era simplesmente transcrever as histórias, também deu errado, porque foi mal-feito e ridiculamente costurado. O que ele fez foi ridicularizar e exagerar as situações de modo que todos parecessem bufões. Que depois morreram massacrados pela polícia. E daí?
Luiz Carlos Vasconcelos –- Drauzio Varella Caio Blat –- Deusdete Gero Camilo –- Sem Chance Milton Gonçalves (pra quê?) –- Chico Lázaro Ramos –- Ezequiel Rodrigo Santoro –- Lady Di Wagner Moura –- Zico Sabotage -– Fuinha Aílton Graça -– Majestade Floriano Peixoto -– Antonio Antonio Grassi –- Sr. Pires Mais um mooonte de gente, quase todos horríveis.
Direção: Hector Babenco Roteiro: Fernando Bonassi, Hector Babenco e Victor Navas
2.Maio.2003

Kamchatka, 2002
Meu escritor favorito é argentino, uma das pessoas mais legais que eu conheci recentemente é argentina, os três últimos filmes argentinos que vi foram brilhantes, e até o Emanuel Ginobili está começando a me suscitar uma certa simpatia. É duro, mas é verdade.
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Estudar cinema em Buenos Aires está se tornando uma opção a considerar com carinho, de verdade. Não é possível que, depois de Nove Rainhas e do maravilhoso Filho da Noiva, eu já logo goste tanto de mais um filme deles. Mais uma vez, o modo como eles falam de um universo maior (a ditadura militar) por meio de uma linha restrita a um bem menor (a família) é fantástica. Sem precisar mostrar nada – um tiro, um policial, uma tortura, nada. É tudo magnificamente bem costurado: os pequenos elementos, as piadas, as falas de um ponto reaparecendo em outro. Roteiro belíssimo, com tudo que o termo tem de brega.
***
E de onde vêm tantos atores bons? Todo mundo que participa é, no mínimo, aceitável. Se o Ricardo Darín fosse norte-americano, a essa altura ele estaria tomando whisky 20 anos e mostrando a um Al Pacino fascinado sua coleção de chimarrões e estatuetas do Oscar.
Ricardo Darín –- Papá (David Vincent) Cecília Roth –- Mamá Matías Del Pozo –- Harry Milton De La Canal –- El Enano (engraçadíssimo) Tomás Fonzi –- Lucas Héctor Alterio –- Avô Fernanda Mistral -- Avó
Direção: Marcelo Piñeyro Roteiro: Marcelo Piñeyro e Marcelo Figueras
2.Maio.2003

Um Tiro na Noite (Blow Out), 1981
Não consigo deixar de esperar que a qualquer momento o John Travolta vá sacar uma arma, cheirar uma carreira de cocaína, falar sobre os McDonald`s europeus ou no mínimo chamar as coisas de “fucking".
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Por que o Brian De Palma tem sempre que transformar a trama aparentemente inteligente em uma perseguição alucinada de gato e rato em lugares insólitos e fotogênicos, só para poder exibir o talento dele com a câmera? De novo isso???
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A trilha sonora do Pino Donaggio é exagerada, metida a querer dizer mais do que o necessário, deixando algumas cenas quase bregas. Bem diferente da do Herbie Hancock no Blow-up. Algumas melodias são até bem bonitas, mas espera aí; se eu quisesse assistir a um concerto, eu avisava.
***
Estou cada vez mais convencido de que o Brian De Palma não sabe fazer cinema; sabe só filmar.
John Travolta – Jack Nancy Allen – Sally John Lithgow – Burke Dennis Franz – Manny Karp Peter Boyden – Sam
Roteiro e direção: Brian De Palma
1°.Maio.2003

American Graffiti (Loucuras de Verão (!!!!???!!!)), 1973
Beach Boys, Cadillacs, Buddy Holly, Drive-ins, The Platters, juke boxes, Chuck Berry, patins de quatro rodinhas, Fats Domino, garotas chamadas Peggy (Sue? Lee?), milk-shakes, Bill Haley, oooh-la la, nightride, wah-wah-wah.
Ok, George Lucas, você venceu, eu confesso: eu queria ser um norte-americano nascido em 1940.
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(Coisas boas me deixam neurastênico e aparentemente hipertenso. Isso pode ser mau)
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Como é que um filme tão alegre consegue deixar um after-taste tão tristonho? É aquela saudade do que não se viveu, admiração sincera ou um princípio de depressão?
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Ron Howard, que faz o papel de uma cenoura amarela, virou diretor consagrado quando cresceu. Fez “Uma Mente Brilhante”, que eu ainda não quis ver.
Richard Dreyfuss -- Curt Henderson Ron Howard -- Steve Bolander Paul Le Mat -- John Milner Charles Martin Smith -- Terry ‘The Toad’ Fields Wolfman Jack -- Ele mesmo Cindy Williams -- Laurie Henderson Candy Clark -- Debbie Dunham Mackenzie Phillips -- Carol Harrison Ford (já um pouco velho e já muito ridículo) -- Bob Falfa
Roteiro: George Lucas, Gloria Katz e Willard Huyck Direção: George Lucas Produtor: Francis Ford Coppola e Gary Kurtz
1°.Maio.2003

A Marca da Maldade (Touch of Evil), 1958
É muito boa essa idéia de já deixar rolando uma situação supertensa enquanto surgem os créditos iniciais. Reforça a sensação, você parece que pensa “vai, sai logo daí! Quem quer saber que o Charlton Heston é o Charlton Heston com essa bomba ticando no porta-malas??”.
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Quarenta e tantos anos antes, quando ainda nem havia as filiais do Taco Bell dando bandeira por aí, o cara tocou no problema da fronteira EUA x México e no preconceito dos norte-americanos como ninguém nunca mais fez.
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Equilibrar a tensão. Cada hora para um lado. Você, seu sentimento, o ritmo do filme. Isso é foda.
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Por mais que o personagem do Charlton Heston seja um panaca, o filme consegue suscitar um senso de justiça que faz a gente torcer para ele. Sinto-me um fraco.
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Para fazer você olhar os personagens nos olhos, o filme tem que ser bom de verdade, como já dizia Epicuro.
Charlton Heston –- Ramon Miguel “Mike” Vargas Janet Leigh –- Susan Vargas Orson Welles –- Hank Quinlan Joseph Calleia –- Pete Menzies Akim Tamiroff –- Uncle Joe Grandi Marlene Dietrich –- Tanya Zsa Zsa Gabor –- Dona do boteco
Roteiro e direção: Orson Welles
1°.Maio.2003

Bem-vindo à Casa de Bonecas (Welcome to the Dollhouse), 1995
Esperando que ela vire punk, junkie, assassina ou profissional do sexo. Por enquanto, nada; mas já surgiram alguns bons sinais.
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O primeiro filme dele e já era repleto de inteligência, embora a construção de algumas cenas e situações seja um tanto mais previsível. Em Felicidade e Histórias Proibidas, as coisas escabrosas acontecem sempre maquiadas pelos instintos das pessoas. Aqui não: é tudo explícito e caricaturizado.
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Eles têm razão: Debbie Gibson é mesmo música de nerd. Será que ela não vai matar a irmãzinha?
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Esperamos todos por aqui. Não aconteceu nada: está aí a graça. Bom demais. Compensa o exagero todo das situações com uma resignação mais sincera impossível. Vai fazer o quê, se é assim estúpido mesmo? O diálogo dela com o irmão é justamente isso (“A oitava série é melhor que a sétima? E a nona?”). Que sujeito sincero é esse Todd.
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Em uma escala evidentemente menor, os filmes dele devem ser mais bem aproveitados por quem conhece a classe média americana como Arca Russa é feito para quem conhece história e identidade da Rússia. Claro que é uma comparação estúpida, mas o combinado era escrever tudo o que viesse à cabeça.
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É mais um indício forte de que procede minha suspeita: os americanos são babacas por mais tempo. Isso além de eles darem valor demais a algumas coisas e de regrarem suas vidas de um jeito assustador. “A sétima série”, nos Estados Unidos, é uma instituição. É igual para todos, tem suas características próprias. Por isso é que, quando um cara resolve dar um peteleco e constata o quanto eles são estereotipados, causa um furor danado e vira “cineasta maldito”. (eu poderia passar horas escrevendo “peteleco”)
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(peteleco peteleco peteleco peteleco peteleco peteleco...)
Heather Matarazzo -- Dawn Wiener Brendan Sexto, Jr. -- Brandon McCarthy Eric Mabius -- Steve Rodgers Matthew Faber -- Mark Wiener Daria Kalinina -- Missy Wiener Angela Pietropinto (haha)-- Mrs. Wiener Bill Buell -- Mr. Wiener
Roteiro e direção: Todd Solondz
27.Abril.2003

Gosto de Sangue (Blood Simple), 1984
Poucas coisas devem fazer tão bem à alma quanto a apresentação do logotipo das distribuidoras de filme nos anos 80. É quando dá para respirar satisfeito e ver que o mundo evoluiu, apesar.
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LEGENDAS EM LETRA MAIÚSCULA???
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Os créditos iniciais, bem interessante. O diálogo já está rolando, entre os dois no banco da frente do carro, câmera no banco de trás, à noite, baita chuva. A cada farol de carro que passa no sentido contrário, na outra pista, muda o nome nos créditos. Ficou bom.
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O diretor de fotografia deles nessa época ainda era o Barry Sonnenfeld, que depois foi virar diretor dos dois Men In Black, Família Addams etc.
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Por que eu tenho a impressão de que pelo menos em alguns momentos, a fotografia de todos os filmes dos anos 80 se parece com a de Paris, Texas, mesmo que eles não queiram? Aliás, os filmes dos anos 80 parecem muito mais velhos do que os preto-e-branco dos anos 50.
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É um filme noir - noir de verdade; é até meio noir demais para mim – em que uma coisa eles fazem brilhantemente: você flagra os personagens em situações esquisitíssimas, pensando de modo confuso, e tudo faz sentido.
Eu entendo que isso tenha sido assustador em 1984, quando ninguém ainda sabia que os irmãos Coen eram a pessoa mais legal do mundo. Para falar a verdade, fiquei meio decepcionado. Talvez seja porque eu assisti ao filme depois de conhecê-los mesmo.
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Imagine os irmãos Coen com grandes adesivos coloridos escrito “anos 80” colados por todo o corpo. É Blood Simple.
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Como a vida já foi divertida: quando entram os créditos finais, a legendagem nos presenteia com três imensas letras, amarelas, grandes, que piscam (piscam!) justo no centro da tela: “FIM” “FIM” ”FIM”. Será que nós achávamos isso normal?
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Estou bem mais seguro a respeito de tudo o que pode parecer estar dando errado na minha vida: existe um filme dos irmãos Coen de que eu não gostei TANTO. O que impressiona: os irmãos Coen já eram os irmãos Coen desde 1984. E, afinal, é preciso começar de algum lugar. Pensando assim, o patamar já era alto pra burro.
John Getz -- Ray Frances McDormand -- Abby Dan Hedaya -- Marty M. Emmett Walsh – Visser
Direção, roteiro e o que mais aparecer: Irmãos Coen
26.Abril.2003

A Malvada (All About Eve), 1950
É certo que traduzir literalmente o título original não daria certo: “All About Eve”, como fica claro logo no começo, refere-se tanto ao fato de que o centro de tudo o que acontece está na Eve Harrington quanto à idéia de que se vai descobrir tudo sobre ela – o que acontece no final.
Mas A Malvada é ruim demais. Acho que a intenção de quem deu o nome foi querer fazer o espectador crer que a malvada é a Bette Davis, com aquela cara de quem está o tempo todo tomando xarope Vick. De qualquer forma, é um título burro.
(Tendo o filme – em branco-e-preto - como base, She’s got Bette Davis eyes não significou muita coisa, não)
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O texto do Mankiewicz é tão bom, tão bom que encobre muita coisa que hoje se tornou clichê. Em vez de essas coisas aparentarem ultrapassadas, parecem... (desculpa) clássicas. Além da razão óbvia que, se muito do que foi feito pela primeira vez lá, em 1950, se transformou em lugar-comum, é porque era tudo tão bom que imitar foi a saída mais confortável.
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Dois dias depois daquela extrapolação de metalinguagem com O Desprezo, do Godard, mais uma cutucada, muito mais sutil, no ambiente cinematográfico/teatral (que na época ainda eram similares o bastante para serem separados (juntados) por uma barra).
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A única ressalva que não tem a ver com os 50 e poucos anos que o filme tem nas costas está no final, no fato de a outra garota chegar e começar a fazer com a Eve o mesmo que ela fez com a Margo. Boa parte da mensagem do filme está naquilo, que, no entanto, me pareceu mal-articulado. É uma seqüência jogada por acaso – o que está longe de acontecer no restante do filme. Como se, na edição, não tivesse dado tempo de explicar melhor, sob o temor de o filme ficar longo demais
Bette Davis – Margo Channing Anne Baxter – Eve Harrington George Sanders – Addison De Witt Celeste Holm – Karen Richards Gary Merrill – Bill Sampson Hugh Marlowe – Lloyd Richards Marylin Monroe – Claudia Caswell
Roteiro e direção: Joseph L. Mankiewicz
24.Abril.2003

O Desprezo (Le Mépris), 1963
Sessão de Godard, às 17h40, quinta-feira. Uma experiência sociológica notável, sobretudo para quem não deseja SE socializar. Refiro-me, claro, a uma dessas bichinhas como muitas, magras, que se sentou por perto no salão de espera. Somos eu, ele e, na outra ponta do sofá, uma garota que até há pouco eu jurava ser o Ânderson Varejão.
Agora, já dentro da sala, o público aproximadamente quintuplicou e somos uns 14 - contando eu, minha pipoca e coca-light. O que nos leva à questão, perigosa a esta altura dos acontecimentos: será permitido comer pipoca em filmes do Godard? Eu bem notei que pareciam me olhar com censura.
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É muito difícil falar qualquer coisa sobre o Godard sem parecer esse tipo de gente que normalmente fala sobre Godard. Eu juro que não quero ser chato, mas o filme é muito inteligente. Sério.
Pela primeira vez, ele conseguiu dinheiro para o filme, conseguiu uma estrela para o filme e não conseguiu aturar o que isso implicava. Por isso, fez do próprio filme um manifesto contra o pragmatismo burro – ou era burrice pragmática? – dos produtores de cinema. E isso faz do filme uma obra-prima e dele, um gênio, correto? Nap.
O Desprezo é bom porque é isso tudo bem-feito. E feito de modo interessante. E feito com recursos de cinema, não de sociologia. A trama interessante, com personagens excelentes, está permeada de idéias e, contra isso, não tenho nada.
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É ainda um forte argumento para a tese de que toda garota deveria aprender francês.
Brigitte Bardot -- Camille Javal Michel Piccoli -- Paul Javal Jack Palance -- Jeremy Prokosh Fritz Lang -- Ele mesmo Giorgia Moll -- Francesca Vanini Jean-Luc Godard – Assistente do Fritz Lang
Direção e Roteiro: Jean-Luc Godard
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